Quarta Feira, 27 Outubro 2021

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Falsas narrativas para legitimar apartheid de Israel

Mídia desenvolve uma campanha para demonizar a resistência palestina, enquanto tenta retratar Israel como um estado pacífico, quando a realidade é a de um estado violento, racista e de apartheid criado sobre as terras e os cadáveres de palestinos.

Por Sayid Marcos Tenório

 

Os conflitos na Palestina ocupada, os antigos e os recentes, despertaram um sem-número de análises sobre suas origens e seus desdobramentos atuais, nas quais aparece com ênfase a nova configuração da resistência palestina, que surpreendeu a muitos com a sua capacidade militar nos conflitos de maio e que obrigou Israel a aceitar o cessar-fogo depois de 11 dias de ataques de ambos os lados. Só que dessa vez, Israel sentiu o peso na sua economia e viu pipocar conflitos entre árabes e colonos sionistas dentro dos territórios atribuídos ao estado judeu.

A narrativa predominante na mídia não podia ser outra: por um lado, demonizam as forças da resistência e retratam Israel como um estado pacífico que está apenas revidando os ataques dos “terroristas”; embora, por outro, o mundo veja, pelos meios alternativos e redes sociais, que, na realidade, Israel é um estado violento, racista e de apartheid criado sobre as terras e os cadáveres de palestinos.

Antônio Gramsci definiu essa realidade midiática como a de uma “imprensa como partido”, em que as empresas de mídia pertencem a determinados grupos políticos, ideológicos e econômicos, nesse caso os sionistas, para defender narrativas por meio das quais difundem sua visão da realidade sem nenhuma preocupação em aparentar qualquer neutralidade. São esses grupos que determinam o que, como, onde e quando a opinião pública deve ou não saber sobre os acontecimentos.

O que chega ao povo por meio da TV, internet e outros meios de informação no mundo inteiro são notícias que silenciam sobre os atos de agressão israelense, enquanto se evidencia a reação palestina e de suas organizações de resistência, dando a entender que palestinos são os agressores e que israelenses estão apenas revidando. A partir dessas narrativas, as pessoas são induzidas a ver o conflito não como ele é, mas como as forças sionistas donas e patrocinadoras da grande mídia querem que ele seja visto.

A mesma estrutura narrativa é adotada pelos chamados “sionistas de esquerda” que atuam na política israelense, unânimes em condenar os governos de direita e até se opor a eles. No entanto, fogem da discussão sobre o status do regime sionista de supremacia judaica na Palestina, a escalada de agressões e o apartheid israelense. Apesar do ideário de “esquerda” e “pacifista”, esses indivíduos acabam contribuindo para legitimar as ações do Estado de Israel contra o povo palestino. Eles não exercem qualquer influência na política israelense, mas acabam se somando às práticas do estado judeu para deslegitimar e atacar a resistência palestina.

Por ingenuidade ou miopia política, essa corrente acredita que a derrota de Netanyahu mudará os rumos da ocupação e do apartheid de Israel, bem como alimenta esperanças em relação à postura dos Estados Unidos sob a presidência de Joe Biden. Os “sionistas de esquerda” não conseguem entender que o novo primeiro-ministro da ocupação, Naftali Bennett, o queridinho dos colonos judeus de extrema-direita, é mais do mesmo e continuará o processo de limpeza étnica na Palestina por meio da construção de mais assentamentos em território palestino.

As narrativas da mídia e dessas correntes são no sentido do não reconhecimento dos partidos armados da resistência palestina, como a Frente Popular para Libertação da Palestina, a Jihad Islâmica e o Movimento de Resistência Islâmica (Hamas), partido que nas últimas eleições palestinas (2006) elegeu democrática e limpamente a maioria do Conselho Legislativo. Mesmo que a postura das forças da resistência seja no sentido do diálogo e da unidade palestina para enfrentar a ocupação, essa gente continua utilizando os bordões sionistas de que esses são partidos “fundamentalistas islâmicos”, portanto, incapazes de dialogar e integrar a representação do povo palestino.

A liderança do Hamas, como o maior e mais influente partido palestino, tem se empenhado pelo restabelecimento das relações e ações conjuntas das forças nacionais, baseadas no pluralismo, na democracia, na parceria nacional, na aceitação do outro e na adoção do diálogo, como forma de reforçar a unidade para atender às aspirações de libertação do povo palestino, como ocorreu no histórico encontro de 5 de setembro de 2020, no qual as principais forças palestinas adotaram uma iniciativa conjunta de contestação da ocupação israelense.

Apesar das evidências do trabalho conjunto do Hamas com outras forças da resistência e partidos da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), ainda encontramos analistas e ativistas, entre eles os tais “sionistas de esquerda”, afirmando, de forma desonesta, que o Hamas quer deslegitimar e até destruir a OLP e repetindo como idiotas o mesmo bordão de sempre de que “o Hamas não é da OLP”.

Esses grupos dominantes escondem a verdade sobre a posição programática do Hamas, que evidencia o reconhecimento da OLP e afirma categoricamente que a organização é uma referência para o povo palestino dentro e fora da Palestina e precisa ser preservada, desenvolvida e reconstruída em bases democráticas, de maneira a assegurar a participação de todas as forças que lutam para resguardar os direitos dos palestinos.

O próprio presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, já declarou, mais de uma vez, que o Hamas é parte da conjuntura nacional palestina e que deve participar imediatamente de um governo de unidade nacional, mesmo antes das eleições. Muito embora e apesar da retórica de unidade nacional, Abbas é o principal obstáculo ao avanço das negociações entre as forças políticas palestinas.

Dois movimentos evidenciaram claramente essa posição. O primeiro foi o cancelamento das eleições para o Conselho Legislativo, marcadas para 22 de maio. O líder do Hamas, Ismail Haniyeh, declarou que Abbas usou “razões absolutamente não convincentes” e que “Abu Mazen sucumbiu à vontade da ocupação israelense”. O segundo foi a não presença do presidente da Autoridade Palestina nas negociações após cessar-fogo, que seriam realizadas no Cairo em meados de junho. Além de não comparecer, Abbas impediu que as facções palestinas da Cisjordânia ocupada viajassem ao Cairo para participar das negociações.

Em meio a esse complexo tabuleiro interno e externo da luta palestina, uma coisa é certa: a resistência não dará trégua e Israel não desfrutará da paz enquanto segurar o povo palestino pela garganta, tornando-o refém do seu regime militar racista de extrema-direita. Enquanto persistir essa opressão, o povo palestino não tem outra escolha a não ser resistir às agressões por todos os meios, somando todas as forças políticas nacionais palestinas numa ação conjunta para acabar com a ocupação colonial sionista na Palestina.

 

Sayid Marcos Tenório é historiador e especialista em Relações Internacionais. É vice-presidente do Instituto Brasil-Palestina (Ibraspal) e autor do livro Palestina: do mito da terra prometida à terra da resistência (Anita Garibaldi/Ibraspal, 2019. 412 p). E-mail: sayid.tenorio@uol.com.br - Twitter: @HajjSayid]

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