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Ghassan Kanafani, o mártir palestino que uniu a caneta e o fuzil

Hoje, há 50 anos, morria o herói palestino Ghassan Kanafani.

Ghassan Kanafani, o mártir palestino que uniu a caneta e o fuzil

 

Por Sayid Marcos Tenório

 

 

Neste 8 de julho lembramos do martírio de Ghassan Kanafani, o revolucionário palestino que uniu literatura e revolução; sua caneta vigorosa ao fuzil da resistência. Há 50 anos uma bomba detonada pelos bandidos terroristas do “estado judeu” interrompeu sua vida em Beirute, aos 36 anos, misturando a tinta de sua caneta com o sangue do seu martírio, para que seu nome ficasse registrado no panteão dos imortais do povo palestino.

Kanafani teve como exemplo de revolucionário o seu próprio pai, Muhammad Fayiz Abd al Razzag, um advogado que atuava no movimento nacional e um lutador contra o colonialismo britânico. Aos 13 anos viu a paisagem de sua infância ser despedaçada pela Nakba, com as casas em chamas e de numerosas famílias em fuga, entre as quais a sua própria família. Conheceu as dores e agruras do exílio logo cedo, quando o colonialismo judeu sionista se abateu sobre a Palestina em 1948.

A sua formação revolucionária, que começou no berço, por assim dizer, porque nasceu sob o som dos combates da revolta de 1936-1939; a revolução que foi o batismo de fogo do movimento nacional palestino contemporâneo, em abril de 1936; os distúrbios locais de árabes contra o colonialismo britânico; e a imigração em massa de judeus sionistas se projetaram nacionalmente numa revolta generalizada dos palestinos, após o início de uma greve geral em 8 de maio de 1936.

Para Kanafani, a violência de 1948 serve para explicitar sua impotência diante do que restou daquele processo de ocupação colonial judaico-sionista. Quando a primeira Nakba foi concluída pelas forças sionistas em 1949, o novo estado de “Israel” compreendia 77% do território que, dois anos antes, havia sido dividido pela ONU, restando apenas a Cisjordânia, incluindo Jerusalém Oriental e a Faixa de Gaza, que estavam sob o controle da Jordânia e do Egito, respectivamente. 

“Israel” continua executando esse processo em todos os campos. Não foi à toa que, em 19 de julho de 2018, o Knesset aprovou a chamada Lei Básica do Estado-Nação do Povo Judeu, por meio da qual “Israel” passa a ser legalmente um Estado exclusivo para judeus. A adoção dessa legislação discriminatória representou uma vitória da extrema-direita sionista, que governa Israel, e uma derrota do resto do mundo, onde não há precedente dessa natureza, além de contrariar a quase totalidade dos países membros da ONU, que reconhece o direito dos palestinos ao seu estado independente e soberano.

O objetivo da ocupação israelense é a completa destruição da Palestina para que haja finalmente o estabelecimento do Estado de supremacia judaica nos territórios ocupados, sem fronteiras definidas e em permanente expansão, transformando o que sobrar da Palestina em pequenas ilhas de terra, como se fosse um miniestado, pulverizado, cercado e sufocado pelo ocupante por todos os lados.

Porém, esses são movimentos fadados ao fracasso diante do evidente crescimento da impopularidade e rechaço de Israel em todo o mundo. As ruas de importantes cidades do mundo são palco de inúmeras manifestações de apoio à causa palestina e de franco repúdio às ações do apartheid sionista. Ao mesmo tempo, constatamos ações de instituições internacionais, como o Tribunal Penal Internacional, que deu início a um inquérito para investigar os crimes de guerra e de lesa-humanidade praticados contra a Faixa de Gaza desde 2014.

A comunidade internacional precisa reavaliar o seu envolvimento e apoio ao regime de apartheid sionista e adotar abordagens centradas na defesa dos direitos humanos de palestinos, responsabilizando e punindo o “Estado judeu” pelas constantes violações, além de estabelecendo uma Comissão de Inquérito no âmbito da ONU para investigar a discriminação e a repressão sistemática de “Israel” contra palestinos e suas organizações humanitárias.

A análise detida da evolução da luta de resistência do povo palestino, sobretudo aquela que se associam ao pensamento de Ghassan Kanafani, nos leva a concluir que o ocupante colonialista e seu apartheid estão cada dia mais distantes de destruir as forças da resistência palestina. 

Apesar de todo aparato militar moderno, Israel não tem conseguido dobrar as forças da resistência nem impedir a realização de manifestações anti-Israel em várias cidades onde residem judeus e palestinos de Israel. A cada novo confronto, as forças da resistência demonstram mais a capacidade de enfretamento dos palestinos da Cisjordânia, de Gaza e dos territórios atribuídos a Israel, que se unem em ações de apoio à resistência e de contestação da ocupação sionista.

Ao observar esse cenário histórico e as batalhas cotidianas das forças da resistência e seus mártires, temos certeza de que Ghassan Kanafani pertence a uma geração de palestinos que lutaram e deixaram um legado de exemplos e escritos destinados a movimentar a resistência, política e culturalmente, e capazes de superar as narrativas dos que subordinaram os povos colonizados. 

O regime de apartheid racista de supremacia judaica exercido pelos sionistas é a pedras que precisa ser removida para a libertação da Palestina. Ghassan Kanafani nos legou com o seu pensamento e uma literatura de resistência, que aponta o caminho da justiça. A jihad e o martírio de Kanafani são combustíveis para a luta pela liberdade palestina contra a ocupação colonial israelense.

 

Sayid Marcos Tenório é historiador e especialista em Relações Internacionais. É vice-presidente do Instituto Brasil-Palestina (Ibraspal) e autor do livro Palestina: do mito da terra prometida à terra da resistência (2. ed. - São Paulo, SP : Anita Garibaldi ; Ibraspal, 2022. 408 p).

 

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