Quarta Feira, 30 Setembro 2020

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Jerusalém, cidade ecumênica da humanidade

Por Sayid Marcos Tenório

Jerusalém (Al-Quds, em língua árabe) é uma das cidades mais antigas do mundo e considerada sagrada pelas três religiões monoteístas: islamismo, cristianismo e judaísmo. O Dia Mundial de Al-Quds foi instituído por iniciativa do pelo líder máximo, político e espiritual da Revolução patriótica, popular e islâmica do Irã, o Ayatollah Khomeini, para demonstrar que a causa palestina é uma questão internacional, de soberania e de direitos humanos. A data é comemorada na última sexta-feira do Sagrado mês do Ramadan, nono mês do calendário lunar islâmico, que em 2020 caiu no dia 22 de maio. O dia de Al-Quds não é um dia exclusivamente voltado para a causa palestina, mas sim o dia simbólico em que todo oprimido enfrenta seu opressor.
 
Este ano, as Nações do mundo testemunharam uma nova violação dos Direitos Humanos e do Direito Internacional, e um novo capítulo na violação dos direitos do povo palestino através do infame plano de Donald Trump em realizar um unilateral “acordo do século”, que significa anexar o Vale do Jordão aos territórios ocupados e reconhecer os assentamentos judaicos ilegais, tornando a Palestina histórica num mini estado pulverizado, cercado e sufocado pelo ocupante por todos os lados. Esse plano é contra o consenso da comunidade internacional pelo direito dos palestinos ao seu estado independente, e contraria solenemente todos os princípios e regras conhecidos que, em vez de reduzir o sofrimento do povo palestino, aumentam os problemas que se avolumam nestes 72 anos de ocupação sionista.
 
Jerusalém foi fundada por volta do ano 3000 a.C., pelos jebuseus, um subgrupo cananeu, numa das melhores localizações da Palestina, em um planalto nas montanhas da Judeia entre o Mediterrâneo e o mar Morto. Líderes das três religiões monoteístas já governaram a Cidade Santa, uma vez ou outra. Os judeus dominaram a cidade por 72 anos, nos tempos bíblicos de Salomão e seu filho Davi. Os cristãos durante cerca de 400 anos entre os séculos IV e VII e, outra vez, no século XX, quando as tropas britânicas capturaram Jerusalém em favor dos seus aliados, após o acordo que desligou a Palestina do Império Turco Otomano, quando a Palestina ficou sob a administração do governo britânico por Mandato concedido pela Liga das Nações, no período de 1922 a 1948. Os muçulmanos, árabes e turcos, governaram a cidade por doze séculos – de 638 a 1917 ininterruptamente – excetuando o período que a cidade foi a capital do reino latino de Jerusalém, sob o governo do imperador romano Públio Aelius Adriano, de 73 a 138 d.C.
 
Durante sua longa existência, Jerusalém foi destruída pelo menos duas vezes, sitiada 23 vezes, atacada 52 vezes e capturada e recapturada outras 44 vezes. As diversas Resoluções das Nações Unidas e o Direito Internacional não reconhecem a soberania do Estado de Israel na ocupação de qualquer parte de Jerusalém. Ela continua a ser a capital histórica e milenar da Palestina. Seu status religioso, histórico e civilizacional é fundamental a árabes, muçulmanos e cristãos e ao mundo em geral. Os lugares sagrados para muçulmanos e cristãos pertencem exclusivamente ao povo palestino, por mais que os sionistas adulterem os livros didáticos para insistir na lenda de que são lugares sagrados ao judaísmo.
 
Desde a Resolução 181, de 28 de novembro de 1947, da Assembleia Geral que aprovou o plano de partilha da Palestina, e decidiu sobre um futuro governo da Palestina e à internacionalização da Jerusalém, o estado sionista descumpre TODAS as Resoluções da Assembleia Geral, do Conselho de Segurança e da UNESCO. Israel sabe que, do ponto de vista do Direito Internacional, da Carta das Nações Unidas e das dezenas de Resoluções da Assembleia Geral e do Conselho de Segurança da ONU, Jerusalém não lhe pertence. 
 
A resolução 303, de 9 de dezembro de 1949, proclamou a internacionalização de Jerusalém e a sua administração pela ONU. Como uma afronta às Nações Unidas e à comunidade internacional, dois dias após a aprovação daquela Resolução e dando seguimento à sua política colonialista de transformar Jerusalém numa cidade judaica, Israel declarou Jerusalém sua capital e mudou a sede do governo para lá, destruíram o cemitério islâmico de Mamilah e converteram-no num parque. Depois construíram um novo cemitério para políticos judeus, em homenagem ao judeu goy asquenaze (judeus provenientes da Europa Central e Europa Oriental) Theodor Herzl, fundador do sionismo, bem como um novo museu e um novo campus da Universidade Hebraica, como forma de adulterar a história em benefício de sua planos de limpeza étnica, histórica e cultural da Palestina. Também proibiu a menção à palavra Palestina ou história árabe-islâmica nos currículos escolares. 
 
A Resolução 478 do Conselho de Segurança da ONU, de 20 de agosto 1980, declarou como nula de efeitos por ser uma violação do Direito Internacional a “Lei Básica de Jerusalém, Capital de Israel”, declarando Jerusalém como capital de Israel pelo parlamento israelense. E convidou os Estados Membros a retirar suas missões diplomáticas da Cidade Santa. A Resolução também afetava a Quarta Convenção de Genebra, adotada a 12 de agosto de 1949 pela Conferência Diplomática destinada a elaborar as Convenções Internacionais para a Proteção das Vítimas da Guerra. A Convenção entrou em vigor na ordem internacional em 21 de outubro de 1950. Esta mesma resolução convidava os Estados Membros a retirar suas missões diplomáticas da Cidade Santa. 
 
Jerusalém é parte integral da Palestina e seus vínculos são comprovadamente milenares. Judeus jamais dominaram Jerusalém por um tempo considerável. A insistência de Israel em tornar Jerusalém a “capital unificada” da ocupação sionista na Palestina viola o Direito Internacional e as diversas Resoluções da ONU. Como é possível que um punhado de colonizadores europeus, utilizando uma suposta razão religiosa, invada, saqueie, mate os verdadeiros donos da terra, utilizando como justificativa estar ungido pelo mandado divino? 
 
Sob o pretexto de que as decisões das várias instâncias da ONU são “anti-israelenses” e que existiria uma perseguição à “única democracia do Oriente Médio”, Israel não cumpre as Resoluções que a obrigam a respeitar o Direito Internacional e para isso conta com o apoio dos EUA no Conselho de Segurança. Desde a Resolução nº 56, de 19 de agosto de 1948, até a Resolução 2334, de 23 de dezembro de 2016 – que não foi contestada pelos Estados Unidos, o status internacional de Jerusalém é o de cidade “ocupada” pelas forças de Israel.
 
Jerusalém é um Patrimônio da Humanidade e a terra em cujo solo estão os restos mortais de milhares de profetas e lutadores por justiça. É a terra de Abraão, Moisés e Jesus e cidade sagrada para as três principais religiões abraâmicas. Seus quatro bairros acolhem as comunidades cristã, muçulmana, judia e armênia que habitavam há séculos a cidade de maneira pacífica e tolerante, até a chegada dos judeus europeus que a ocuparam depois da fundação do estado dos sionistas, em 1948. 
 
A questão do status de Jerusalém não será resolvida sem que todos os direitos de árabes (cristãos e muçulmanos) e judeus sejam reconhecidos dentro do espírito que norteou a Cidade Santa durante sua existência milenar. O reconhecimento dos direitos coletivos de apenas uma população, os judeus israelenses, é uma injustiça indefensável, em todos os sentidos. Tentar expulsar a presença árabe que já dominou Jerusalém por 1300 anos é uma afronta aos palestinos, à humanidade e ao legado milenar da Cidade Santa, contra o qual anualmente milhões de pessoas se mobilizam em todos os cantos para declarar a sua solidariedade a Jerusalém. 
 
O povo oprimido da Palestina precisa do apoio de todos os amantes da liberdade e dos direitos humanos, e dos Países independentes, especialmente das Nações Unidas, para interromper a nefasta ocupação, assegurar o retorno dos refugiados palestinos e pessoas deslocadas, para que possam viver dignamente em sua Terra Natal ancestral da Palestina, tendo como capital a sagrada AL QUDS.
 
 
Sayid Marcos Tenório é historiador e Secretário-Geral do Instituto Brasil-Palestina (IBRASPAL) e autor do livro Palestina: do mito da terra prometida à terra da resistência (Anita Garibaldi-Ibraspal, 2019).

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