Domingo, 16 Junho 2019

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Palestinos tem muita esperança no Brasil

A vida tornou-se impossível, de modo que as Nações Unidas em seus relatórios afirmam que Gaza será inabitável em 2020

Por Dr. Basem Naim

 

No último dia 31 de março, o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, visitou a cidade sagrada de Jerusalém e anunciou a abertura de um escritório de negócios do seu país. Na visita ele estava acompanhado do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, quando visitaram o Muro do AlBuraq (das Lamentações) na área da mesquita de Al-Aqsa, dois lugares sagrados para o povo palestino.

A visita causou grave indignação entre o povo palestino. Não por causa da visita à Cidade Santa, mas porque aquela visita foi uma clara violação de direito internacional e porque o gesto do presidente Bolsonaro contraria a longa história da relação do povo palestino e brasileiro. Esses dois povos têm laços há dezenas e até centenas de anos, já que a primeira visita de um chefe de Estado brasileiro foi realizada pelo imperador do Brasil, D. Pedro II, ainda durante o reinado do império Otomano, no ano de 1876.

PRESIDENTE JAIR BOLSONARO DURANTE VISITA AO MURO DAS LAMENTAÇÕES

Nas últimas décadas o Brasil apoiou o direito do povo palestino à liberdade e independência, com repercussão nos países da América Latina e entre os países do BRICS. O Brasil foi o primeiro país de América Latina a reconhecer o Estado da Palestina em 2010, votando favoravelmente aos direitos dos palestinos em todos os fóruns internacionais, além de ter contribuído com o bem-estar do nosso povo através de generosas doações aos nossos programas de obras públicas e socorro aos refugiados por meio da Agência UNRWA, ou diretamente através da Representação do Brasil na cidade de Ramallah, ajudando a fortalecer a infraestrutura nos Territórios Ocupados.

O Brasil ocupa uma posição de grande respeito nos corações dos palestinos, que é incentivado pela grande comunidade palestina com mais de 80 mil pessoas que chegaram ao Brasil desde o final do século XIX. Os palestinos foram bem acolhidos no Brasil e contribuíram na construção da sua segundo pátria, o Brasil. Esta é uma prova de amor ao Brasil que se manifesta entre outras formas, como na torcida pela seleção brasileira de futebol. Além do mais, o reconhecimento do Brasil é de grande importância pela sua liderança em nível regional e internacional, como país emergente, a décima maior economia do mundo e maior país da América Latina.

Nós palestinos estamos na nossa terra há milhares de anos, criamos uma civilização e contribuímos para o bem-estar da humanidade. Agora estamos sofrendo com a Ocupação israelense, que tem como objetivo ampliar o crime iniciado em 1948 através da Nakba, a tragédia que assassinou milhares e nos colocou para fora do nosso país, roubando nossa terra e destruindo lugares sagrados para cristãos e muçulmanos.

Talvez o que vimos e ouvimos recentemente de políticos israelenses em suas campanhas reflitam como eles veem seu relacionamento com os palestinos e o futuro do conflito. Muitos deles são orgulhosos de quantos palestinos foram mortos e quantas casas foram demolidas, ou mesmo da expulsão dos palestinos para a anexação do restante da Cisjordânia.

No aniversário do Dia da Terra, que é comemorado no dia 30 de março de cada ano, dezenas de milhares de palestinos saíram de forma pacífica na Faixa de Gaza em 2018, com o apoio de todas as correntes políticas e segmentos da sociedade palestina, para reclamar seu direito de voltar para as suas casas de onde foram expulsos em 1948 e exigir o fim do bloqueio criminoso que foi imposto por Israel desde 2007, tornando Gaza em uma grande prisão a céu aberto, que muitos israelenses descrevem como os campos de detenção semelhantes aos que os nazistas fizeram contra os judeus na Europa nos anos de 1930 e 1940.

Foi por isso que esses milhares de palestinos foram para a cerca de separação leste da fronteira da Faixa de Gaza sem que isso represente ameaça a ninguém, como confirma relatório da ONU e da Organização internacional de Direitos Humanos, que acompanharam todas as sextas-feiras esse movimento que é conhecido como a Grande Marcha do Retorno.

PALESTINOS PARTICIPANDO DA GRANDE MARCHA DO RETORNO

E qual foi a reação de Israel? O uso da força letal de atiradores treinados e o resultado até hoje é de cerca de 300 mártires e mais de 28 mil feridos, centenas deles mulheres e crianças. Centenas ficaram incapacitados para a vida toda. Enquanto o Conselho de Direitos Humanos da ONU vem investigado os eventos da Marcha do retorno em Gaza e confirmou que Israel comete crime de guerra contra civis pacíficos, o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu considerou a morte de 300 palestinos pacíficos como “uma decisão sábia e correta”.

Esta é a oportunidade para enfatizar que nosso problema básico com os judeus não é a religião, mas com a ocupação em nossa terra. Nós somos orgulhosos de que em nossa terra tenham vivido judeus, cristãos e muçulmanos em paz por centenas de anos.

Afirmamos que nossa esperança pelo apoio do Brasil aos nossos direitos inalienáveis é grande. E que a atual política brasileira, liderada pelo presidente Bolsonaro, do nosso ponto de vista, não serve aos interesses comuns e complexos da região e do Brasil, com esta posição tendenciosa em favor da política de Ocupação e contrária ao Direito Internacional, não antagoniza apenas os palestinos, mas os mais de 450 milhões de árabes e mais de 1,7 bilhões de muçulmanos ao redor do mundo

Segundo o Direito Internacional, Jerusalém é uma cidade ocupada e Israel não tem o direito de legitimar sua Ocupação, dar cobertura para violar os santuários islâmicos e cristãos ou demolir a mesquita de Al-Aqsa para construir um suposto templo. Esta política imprudente não serve a estabilidade e paz na região, mas reforça o estado de tensão, caos e extremismo e impulsiona o prolongamento do conflito.

Estamos confiantes de que o Brasil e seus grande povo, com enorme potencial nos níveis regional e internacional, pode desempenhar um papel central em ajudar o povo palestino a alcançar sua liberdade e independência e ajudar a região a alcançar estabilidade e prosperidade.

 

Fonte: Carta Capital

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